top of page

Serie Casa-Vão

Nossa língua, o que significa nosso modo de sentir e dizer esse mundo, até então inóspito, quase hostil - tanto que nosso primeiro gesto, talvez filosófico, ao nascer seja o berro do espanto.

Até que tudo comece a amainar, as coisas passam a nos ser nomeadas, e assim, podemos nos abrigar nela. Como nas primeiras linhas de "Cem anos de solidão", do colombiano Gabriel García Marquez, que nos fala de um mundo que se dava a partir do momento que apontamos os dedos e damos nomes às coisas. O mundo pode ser, finalmente, casa.

Aos mais sensíveis, os artistas sobretudo, a tentativa de repor isso são várias. Parece sempre esse o desafio da linguagem (seja a mais literal ou a mais geométrica), dar-nos guarida. Muitas vezes das quais nem sabíamos precisar e está reposto o espanto. Como nascer na frente da obra.

CASA-VÃO. O uso proposital do hífen, que em nossa sintaxe, marca a indissociação dos dois significantes, literalmente impõe (em peça e título) o atravessamento como fundamento do que também acolhe. Artimanhas da nossa bela gramática que, onde a emoção corrige a regra, o geométrico acusa.

 

Marina Rodrigues nesta nova série lança mão de dois elementos líricos de topológica comunhão: a "emocionalização" de sua geometria, o rasgo de uma viga ao concreto, que se não o estetiza, ao menos nos devolve a lucidez de que o trauma (o corte, o atravessamento) é parte constitutiva inclusive do que compõe, e também abriga. É a incorporação do corte, da perfuração como fundamento da estrutura. Não é só sensibilizar, é co-mover.

Flávio Morgado (Poeta, editor da Revista A Palavra Solta e artista-trabalhador)

Foto: Julio Casanova

Ferida permanente, 2022, Série Casa-Vão, concreto e vidro, 57 x 48 x 6cm

Recorte e respiro, 2022, Série Casa-Vão, Concreto e aço corten, 41 x 30 x 8cm

Desvio, obra modular, Série Casa-Vão, 2022, Concreto e aço corten, 18 x 22 x 5,5cm

bottom of page