A coletiva se impõe como um marco diferencial e celebra o talento e a ousadia destas artistas.

No pórtico de entrada da Academia de Atenas, lia-se: “Não entre quem não for geômetra”. Platão consolidou o entrelaçamento entre o pensamento filosófico e a racionalidade matemática expressa pela geometria, conhecimento levado do Egito à Grécia por Pitágoras e por Tales de Mileto. Para Heródoto, a geometria tem uma função prática, já no entender de Aristóteles, ela é puramente teórica. O platônico Euclides, “pai da geometria”, considerava o espaço como imutável, simétrico e geométrico. Este pensamento se manteve inalterado durante a Idade Média e o Renascimento. Somente na modernidade os modelos geométricos não-euclidianos foram propostos por Carl Friedrich Gauss e Bernhard Riemann. A perspectiva masculina predominou por séculos na racionalidade geométrica ocidental. A coletiva GEOMÉTRICAS: PERSPECTIVAS FEMININAS confronta essa tradição. O diálogo entre diferentes conceitos, pesquisas, propostas e abordagens das artistas reunidas em órbita do tema proposto pela curadoria apresenta diversas provocações estéticas, éticas e filosóficas. As artistas Alice Gelli, Amalia Giacomini, Elizabeth Jobim, Marina Caverzan, Marina Rodrigues e Renata Tassinari levam adiante a geometria dos caminhos abertos pelas pioneiras Lygia Clark e Ligia Pape, herdeiras das tradições construtivas do De Stijl, da Bauhaus e do construtivismo russo. Esta exposição celebra as visões do abstracionismo geométrico que essas mulheres vêm desenvolvendo em suas trajetórias artísticas. Esse campo – historicamente dominado por homens – está defronte, no século XXI, da luta pela equidade de gênero, que vem alcançando, cada vez mais, mudanças na sociedade e na arte.

Por Christiane Laclau